Do Dicionário de Citações

Dupla delícia.
O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.
Mário Quintana

quinta-feira, 27 de julho de 2017

A Biblioteca da Dieta do Japão e a Reconstrução Nacional

Kokuritsu Kokkai Toshokan


Tokio, Japão
Projeto: Mayekawa Associates, Architects & Engineers

A Biblioteca Nacional da Dieta do Japão foi fundada em 1948, um ano após a promulgação da carta constitucional, a qual zelava pela soberania do povo através do fortalecimento da Dieta, ou seja, de seu corpo palamentar. Pode-se mesmo dizer que a NDL – ou National Diet Library, como ficou conhecida no ocidente – nasce dos escombros de uma terra e de um povo devastados pela Guerra, donde sua importância simbólica para um país em reconstrução. 
Nos termos da lei, sua função primordial era a de assistir aos membros do parlamento com uma boa coleção de livros e documentação relativos ao sistema político e à legislação japonesa e, de modo mais abrangente, de franquear seu acervo ao leitorado japonês. Nesse sentido, ela adotaria o sistema das bibliotecas nacionais, a exemplo da Library of Congress, dos Estados Unidos, resguardando, inclusive, o direito do depósito legal.  
O fundo inicial se formou a partir de duas importantes e tradicionais instituições : a Biblioteca Imperial, de 1872 ; e as bibliotecas parlamentares, formadas pela Casa dos Pares, ou seja, por membros da família imperial nomeados pelo soberano; e por membros da Casa dos Representantes, os quais eram eleitos por sufrágio direto, de acordo com a Constituição de 1889. Notemos que as duas initiativas datam da Era Meiji, período iniciado em 1868, que conduziu a nação japonesa a uma série de medidas modernizadoras, baseadas em modelos ocidentais. As bibliotecas oficiais, nesse sentido, traduziam o espírito patriótico e fortemente identitário da nação japonesa.
Atrium do Edifício Anexo da NDL, Tóquio-Japão
Durante as primeiras décadas de funcionamento, a biblioteca permaneceu no Palácio Akasaka, em área anexa ao Parlamento, em Tóquio. Porém, o aumento progressivo do acervo demandou a construção de um novo edifício. Em 1968, era inaugurado, nas imediações da antiga sede, o prédio principal da NDL. Um anexo passaria a ser eridigo no final da década de 1980, constituindo uma extensão da face norte do prédio principal. Trata-se, todavia, de um projeto mais arrojado do ponto de vista arquitetônico : a iluminação natural perpassa as salas de leitura, dispostas ao longo de quatro andares, ao redor do atrium, através de uma claraboia instalada ao centro do teto. Mesmo os pisos subterrâneos são guarnecidos pela luz ambiente, graças ao sistema complexo de composição das salas em relação ao rés de chão. Os dois edifícios compreendem uma área de 148.000 m2. As estantes ocupam 53% do espaço construído e possuem capacidade para o armazenamento de 12 milhões de volumes.

A Biblioteca Nacional da Dieta compõe, hoje, uma verdadeira rede de bibliotecas. Além dos edifícios principal e anexo, inaugurados em 1968 e 1993, uma nova construção foi planejada para servir como depósito de reserva, em 2002, na cidade da ciência de Kansai. Mas o projeto mais notável por sua originalidade foi, sem dúvida, o da Biblioteca Internacional de Literatura Infantil, inaugurada em 2000 e concluída em 2002.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Österreichische Nationalbibliothek (Hofbibliotek), 1730

Em Viena, uma jóia barroca

Projeto: Johan Fischer von Erlach (1656-1723)

avstriae est imperare orbi vniverso, O destino da Áustria é de governar o mundo, Frederico III (1440-1493)


No limiar do século XVIII, o império dos Habsburgos atinge o seu apogeu, após a vitória contra os otomanos. Em 1711, Carlos VI (1685-1740) será coroado Imperador Romano-Germânico, Arquiduque da Áustria e Rei da Hungria, Croácia e Boêmia. Mas seus domínios vão muito além, pois atingem as terras da Sardenha, de Nápoles e da Sicília.
A Hofbibliotheke destina-se, então, à glória do grande Kaiser. Suas dimensões monumentais (77 m de comprimento, 14,2 m de largura e 16,6 m de altura) são apenas comparáveis a de uma catedral. O edifício se torna ainda mais expressivo em meio ao casario suntuoso em estilo Barroco que conforma a Josefplatz, embora nenhum supere a biblioteca em termos de extensão e luxo.
O pórtico de entrada é encimado por esculturas equestres, tendo Minerva ao centro. Mais abaixo, as inscrições latinas fazem jus ao sentido imperial que se atribui a essa instituição:
carolvs avstrivs de leopoldi avg f avg rom imp p p bello vbiqve confecto instavrandis fovendisqve litteris avitam bibliothecam ingenti librorum copia avctam amplis extructis aedibus pvblico commodo patere ivssit
m d ccxxvi
O mobiliário e as alegorias que conformam a Prunksaal, o salão da biblioteca, perfaz um capítulo singular na história do décor das instituições de leitura em estilo Barroco e Rococó. A planta, no entanto, é bastante simples e racional. Um longo corredor iluminado por janelas laterais, dos dois lados, distribui em perspectiva as salas dos livros. Os dois extremos foram decorados por temáticas diversas, que se opõem e se completam: a primeira foi denominada “Ala da Guerra” e a última “Ala da Paz”. As duas alas são separadas por um salão oval disposto no centro do edifício, dedicado à gloria de Carlos VI. O Kaiser se faz representar por uma grande escultura de Hércules instalada bem no centro da sala, sob uma cúpula decorada por pinturas trompe l’oeil, de Daniel Gran (1694-1757). O artista da corte faz uso de alegorias para narrar a história da edificação da biblioteca: em um céu populoso, vemos desfilar todas as artes que se encontram sob a proteção do monarca.

O salão oval foi reservado às coleções mais valiosas do Imperador, dentre as quais, a biblioteca de Eugène da Savoia (1663-1736), este sobrinho do Cardeal Mazarino que abandonou a corte de Luís XIV para servir à casa dos Habsburgos, onde realizou uma brilhante carreira militar. Sua fortuna e prestígio o introduziram na arte da bibliofilia, o que resultou em uma coleção de 18.000 volumes cuidadosamente selecionados e encadernados.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

"Radicalismos" de Antonio Candido

Antonio Candido: intelectual por temperamento, militante por vocação


http://literatortura.com/2013/05/antonio-candido-indica-10-livros-para-conhecer-o-brasil/

Simbolicamente, era como se houvesse uma ligação profunda entre a aclamação de agora e aquele texto de 1936 [Raízes do Brasil], segundo o qual só a transferência de poder às camadas espoliadas e oprimidas poderia quebrar o velho Brasil da iniquidade oligárquica. Antonio Candido, 1982.
A paisagem intelectual brasileira perdeu toda a sua graça, nesta última sexta-feira, 12 de maio de 2017. Desbotou, ficou muda, o horizonte se perdeu. Sempre imaginei que o Professor Antonio Candido tivesse o dom da ubiquidade, pois embora já fosse aposentado quando ingressei na Universidade de São Paulo, em 1992, seu nome, seus livros e suas posições políticas sempre muito francas, particularmente nos momentos mais polêmicos, estavam por todas as partes e funcionavam como um luzeiro entre os jovens militantes da FFLCH. 
Florestan Fernandes e Antonio Candido figuravam no nosso panteão imaginário. Em um discurso duro e certeiro, proferido em 1994, do qual participavam o reitor, diretores, professores, alunos e funcionários da Universidade, Florestan rememorava a história daquela instituição, a qual, em certo sentido, perfazia a sua própria jornada: 
Hoje a USP não é a universidade de 1934; nem é a universidade em que Antonio Candido pontificava na crítica literária, e outros professores subiram no cenário intelectual brasileiro e mundial. Também não é a universidade dos ditadores, nem é a universidade para nossos dias. A universidade que devemos querer agora é aquela que se volte para a conquista do futuro.
Entre perdas e ganhos, continuamos a buscar a universidade para nossos dias. O que não descartava, certamente, a utopia de um Brasil mais justo e mais igualitário para a conquista do futuro. O primeiro se foi muito cedo, não teve tempo de vivenciar as vitórias e as debacles dos tempos futuros. Mas o professor Antonio Candido se manteve firme e constante no seu apoio irrestrito à democracia, à igualdade e aos movimentos sociais. Não escrevia e não se expressava em demasia. Tudo nele era justo e temperado.
Esse traço sereno de seu temperamento foi por ele notado em uma conversa, não faz muito tempo. Ao recordar as noites de vigília no prédio da rua Maria Antonia, nos anos de chumbo, comentou com um sorriso jovial que os alunos adoravam suas conversas. Sim, ele era um prosador exímio e não conseguia se alterar, perder a paciência, embora reconhecesse que o momento era dos mais críticos na história da então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Vale lembrar que ele conhecera a ditadura Vargas e se tornara voz ativa contra o regime instaurado entre 1937 e 1945.
Nasceu de sua pena uma das análises mais precisas do caráter conservador de nossa sociedade: “pois à medida que o tempo corre verifica-se que um dos traços fundamentais da mentalidade e do comportamento político no Brasil é a persistência das posições conservadoras, formando uma barreira quase intransponível”. Nesse escrito de 1988, ele identifica algumas vozes dissonantes: Joaquim Nabuco, no interstício (e só nele!) da campanha abolicionista; Manoel Bonfim, nas formulações sobre o Brasil; e Sérgio Buarque de Holanda, “o primeiro intelectual de peso a fazer uma franca opção pelo povo”. A análise se encerra em 1936, quando o ensaio Raízes do Brasil irrompe com seu programa aberto contra o Brasil passadista, agrário e patriarcal. Sabemos bem que outras revoluções possíveis viriam despontar na paisagem intelectual brasileira.
“Radicalismos” demonstra de forma eloquente a astúcia do intelectual: ele aponta o traço marcadamente conservador do pensamento e da praxis política brasileira, de modo a atribuir ao povo a única via de transformação possível. Naqueles idos de 1980, quando a intelectualidade era chamada a tomar partido, nosso intelectual maior, um socialista por temperamento, como gostava de dizer, não titubeou ao participar da fundação do Partido dos Trabalhadores, talvez, o radicalismo possível na paisagem política do Brasil. Mas, certamente, como nos ensina Antonio Candido, um veio aberto para a militância do intelectual desenraizado de sua classe.  
Saudades, Professor.


 Publicado originalmente em http://brasileiros.com.br/2017/05/antonio-candido-intelectual-por-temperamento-militante-por-vocacao/