Do Dicionário de Citações

Dupla delícia.
O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.
Mário Quintana

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Lançamento: Guilherme Mansur em Editando o Editor, n.9

Fui alfabetizado por uma caixa tipográfica.


Guilherme Mansur tem um perfil profissional raro, pois suas atividades estão todas articuladas à cadeia produtiva do livro, desde a concepção de uma ideia, passando pela ideia de uma página, até atingir o próprio suporte dessas ideias, ou seja, o livro.
Eu digo isso porque é muito raro encontrar nos dias de hoje uma figura tão plural e, ao mesmo tempo, tão única. E por que essa raridade? Por que desde a invenção dos tipos móveis, a tipografia e, mais propriamente, a produção do livro obedeceu a uma tendência multissecular de profissionalização e especialização que atingiu seu zênite no século XIX, quando houve uma distinção mais evidente entre o Publisher, o Editor e o Operário Gráfico. E quando falamos em operários gráficos queremos dizer que o ambiente da impressão se descolou completamente do ambiente de produção intelectual e o gráfico passou a condição de operário assalariado, ou seja, trabalhador desprovido de seus meios de produção.
Mas, quando lemos esse belíssimo relato de Guilherme Mansur, essas fronteiras ficam menos claras. Há muita atividade intelectual e criativa em um atelier tipográfico. Da mesma maneira que a poesia e a escrita se constrói com muito suor, é trabalho mental e corporal.
* * *
Guilherme Mansur nasceu em Ouro Preto, em 1958, onde reside até hoje. E, como ele mesmo relata, “fui alfabetizado por uma caixa tipográfica".
Editou, no sentido mais amplo possível da palavra, clássicos da literatura, mas, também, autores jovens, que viriam a escrever páginas importantes na história das vanguardas artísticas. Considerando o catálogo de publicações da Tipografia do Fundo de Ouro Preto e de outros selos para os quais contribuiu, podemos enumerar: ....
Guilherme Mansur, o nono volume da Coleção Editando o Editor, uma publicação da Com-Arte e Edusp, foi organizado por Simone Homem de Mello, uma importante e fecunda artífice das palavras.

sábado, 12 de maio de 2018

O Título de um Livro, de Lincoln Secco

Lincoln Secco me enviou esse belo artigo e pediu que eu publicasse em nosso blog.
https://brasil.elpais.com/brasil/2018/01/24/politica/1516815938_008656.html
O tempo anoitece as leituras. Aos dezessete anos eu estava entre perdido e apaixonado nas manhãs da USP. Eram tempos de cursar as letras, ler a Crestomatia Arcaica com as canções medievais, estudar a morte na literatura, os volumes infindos do padre Bernardes, as edições originais dos livros de Otto Maria Carpeaux, que os li todos. Estranhava os títulos : Origens e Fins, a cinza do purgatório... Tanto quanto os belos que me caiam às mãos : Amor de Perdição, admirável mundo novo, os donos do poder, casa grande e senzala.... Ou o mais encantador da colônia, mais que Cultura e Opulência do Brasil. Lembro do Divertimento admirável para os historiadores curiosos observarem as máquinas do mundo reconhecidas nos sertões da navegação das minas de Cuiabá.
Um dia um jovem professor me viu com A Gloria de Cesar e o Punhal de Brutus, de Alvaro Lins. Alguém ainda lê isso? Não podia responder que só porque o título me atraía. E que um livro vale não pela capa, mas às vezes pelo título. Desculpe professor, peguei ao acaso. Murmurei. Como podem ser belos os de alguns livros fortes: Esta Noite a liberdade, as veias abertas da América Latina, os condenados da terra...
Nos sebos dos anos 1980 um livro despedaçado na Rua Rodrigo Freitas sempre me chamava a atenção : Tratados, Farrapos de Papel. Era uma frase do chanceler alemão Bethmann Hollweg. Hoje eu sei. Não havia ainda para mim os historiadores, só o teatro da coleção abril e seus Pirandello, Albee e Ibsen que um astrólogo Fernando Guimarães me emprestava antes de partir para San Francisco. E o cheiro de terra e sangue nos contos de Verga. E Italo Svevo. Alberto Moravia lido à espera do amor não correspondido. Uma tarde, depois do bandejão, fechei os olhos na última página do diário de Cesare Pavese : “Non scriverò più “. E não mais escreveu. Matou – se o autor de A Lua e as Fogueiras. O combatente antifascista.
Eu lia insaciado entre os estudantes desapressados do Crusp. Veronica me oferecia Lula : a biografia de um operário e Eduardo o Pai Patrão. E eu perambulando pelas bancas de livros usados do Evandro e do Jai, no DCE Livre onde havia a menininha Isadora antes de saltar da vida, a dançarina Raquel, os punks do uspício, os poemas ainda não escritos de Heitor, as esperanças do Mao na Revolução, os olhos da Silvia. Ubi sunt? O professor Davi Arrigucci falava “Bakhtin” enquanto salivava envolto com as próprias ideias. Ali ruminava suas Leituras de Manuel Bandeira. Elias intentava um romance, Eduardo uns versos e todo mundo queria a poesia. Eu lia só os títulos enquanto imaginava Raquel selar as cartas que me enviava com seus lábios adstringentes. E pareciam dizer: vamos viver no nordeste. Vamos viver de brisa.
Numa livraria tantos anos depois eu procurava um título que desejo com todas as minhas vontades : Tous les chevaux du Roi de Michele Bernstein. Ah, que título. Mas meus olhos se espantam entre as lombadas da estante com “A história de um mentiroso “, um Bakhtine Démasqué... Folheei triste, deixei. E o pesquisador Bruno Gomide da USP descobre que Otto Maria Carpeaux plagiou Walter Benjamin... O meu Carpeaux! Na imprensa leio editoriais fascistizantes, notícias verdadeiras (prefiro as falsas) e que o escritor brasileiro mais rico recebe um repórter em sua pequena mansão Suíça. Nela não há um único livro.
Tempos de restauração. Sei que no Sul do país um ex presidente lê num cárcere. E se dessa vez eu fosse viver no nordeste?

segunda-feira, 12 de março de 2018

As Bibliotecas de Maria Bonomi

Nas bibliotecas de Maria Bonomi todas as formas se multiplicam ao infinito


Atrevo-me a insinuar esta solução do antigo problema: A Biblioteca é ilimitada e periódica. Se um eterno viajante a atravessasse em qualquer direção, comprovaria ao fim dos séculos que os mesmos volumes se repetem na mesma desordem (que, reiterada, seria uma ordem: a Ordem). Minha solidão alegra-se com essa elegante esperança.

Jorge Luis Borges

Domos, cúpulas, cimalhas, colunas, janelas, portais, salões, alcovas, desvãos, corredores, galerias, armazéns, subterrâneos, armários, estantes, correntes, pinturas, talhas, pedra, mármore, granito, ferro, espelhos, vidro, aço... as arquiteturas das bibliotecas evocam o que há de mais avançado em termos de construção civil, no presente e no passado. É possível que essa tradição de se reservar aos livros um espaço nobre remonte aos tempos gloriosos da Biblioteca de Alexandria (s. III a.C.).Os cataclismos que atingiram a capital vibrante do Egito, na antiguidade tardia, reduziram os traços físicos da Biblioteca a imagens fugidias, registradas na literatura. Deve-se a Estrabão (63-20 a.C.) as melhores descrições do sítio e da planta do Museu (Mouseiôn, ou templo das musas). Sabemos hoje que a biblioteca não constituía um edifício independente, pois os livros eram depositados em estantes no grande salão do museu, ou nas bibliothékai, na acepção original grega. Donde a confusão metonímica que ativou durante séculos a imaginação das gentes na busca de um palácio dos livros.
Plinio Martins Filho e Maria Bonomi, editor e artista

No Atelier de Maria Bonomi,
 as gravuras em exposição

Na ausência de uma imagem que tenha fixado o modelo daquele antigo templo dos livros que o homem destruiu, mas que não se apagou da memória das civilizações, toda biblioteca se converteria, por extensão, em uma releitura do museu alexandrino. As primeiras bibliotecas que compõem esse volume testemunham a grandeza dos palácios reservados aos livros na Renascença italiana. Na richissime sala Sistina, da Biblioteca Vaticana, afrescos representativos das principais bibliotecas antigas (Babilônia, Cesareia, Pérgamo, Alexandria...) guardam a memória do mundo, ao lado dos mitos fundadores de uma civilização antiga, que fincara suas raízes no ocidente, embora tenha sido suplantada pela Igreja cristã.Essas imagens se multiplicam por séculos a fio e se traduzem, hoje, em uma arquitetura imponente, tecnológica, comandada pelo uso indiscriminado do concreto, do aço e do vidro. Novas bibliotecas surgem todos os anos, por todas as partes, desafiando as leis do espaço e as tecnologias de informação e comunicação. Alguns edifícios parecem planar sobre as cidades, outros se convertem nas próprias cidades. Uma cidade poderosa, guardiã da memória do mundo e dos reis, seguindo os modelos das bibliotecas principescas e religiosas do Antigo Regime, as quais demoravam a se converter em instituições nacionais, respondendo às ingerências de um século XIX em plena revolução. E uma cidade inteligente, agregadora, cidadã, seguindo os modelos em evidência nos tempos atuais.
Assim, os registros que compõem esse volume não pretendem esgotar as múltiplas possibilidades de edificação e décor das bibliotecas. Os traços de Maria Bonomi são recursos narrativos ou releituras de formas variadas que não se esgotam. Pelo contrário, suas bibliotecas se multiplicam ao infinito.
* * *
LANÇAMENTO:
15/03/2018 - QUINTA-FEIRA, 18 HORAS
BIBLIOTECA GUITA E JOSÉ MINDLIN - USP

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Sob os escombros da Biblioteca de Sarajevo

Livros sob os escombros de Sarajevo

1992 - A Biblioteca de Sarajevo sob os escombros.https://calledelorco.com/2015/06/28/el-hombre-que-salvo-la-haggadah-de-sarajevo-alberto-manguel/
Em Lamento por Vijecnica, do poeta bósnio Goran Simic (1993), podemos sentir a dor de uma vida despedaçada entre livros:
A Biblioteca Nacional queimou nos últimos três dias de agosto e a cidade se afogou com a neve negra.
Liberados os montes, os caracteres vagaram pelas ruas, misturando-se aos transeuntes e às almas dos soldados mortos.Vi Werther sentado na cerca arruinada do cemitério; vi Quasímodo se equilibrando com uma das mãos no minarete.Raskolnikov e Mersault cochicharam juntos durante dias em meu sótão; Gavroche se eximiu com uma camuflagem cansada.Yossarian já se vendia ao inimigo; por uns poucos dinares o jovem Sawyer mergulhava longe da ponte do Príncipe.Cada dia mais fantasmas e menos pessoas vivas; e a terrível suspeita se confirmou quando os esqueletos caíram sobre mim.Encerrei-me na casa. Folheei os guias de turismo. E não saí até que o rádio me dissesse como eles puderam apanhar dez toneladas de carvão no subterrâneo mais profundo da queimada Biblioteca Nacional.
A Biblioteca de Vijecnica, ou simplesmente, a Biblioteca Nacional da Bósnia e Herzegóvina, em Sarajevo, sofreu o primeiro de muitos ataques na noite de 25 de agosto de 1992, por ordem do general sérvio Ratko Mladic. Sucumbiram ao fogo inimigo 1,5 milhão de volumes, 155 mil obras raras, 478 manuscritos, milhões de periódicos nacionais e estrangeiros. O fim trágico desse belo edifício fundado em 1886 não foi o único a compor esse capítulo a que Fernando Báez chama de livrocídio. Jamais na história da destruição dos livros, observa o autor, bibliotecas inteiras, senão, todo o patrimônio cultural de um povo foi destruído com a finalidade de se eliminar não apenas um povo, mas a sua história, a sua memória, os seus traços. 
Ocorre que as bibliotecas são instituições universais por natureza. É esta sua vocação, desde os tempos de Alexandria, senão antes. Resguardar todo o conhecimento, toda a memória da humanidade. Quando se destrói por completo uma biblioteca, não se comete apenas o livrocídio, a limpeza étnica, tal como fora praticada em Sarajevo. Boa parte da memória do mundo estava ali, inscrita nos escombros. Como diz o poeta Simic, morreram Werther, Quasímodo, Gavroche, Saywer...
E como os livros constituem mercadorias dotadas de um poder simbólico invulgar, parece evidente que a população de modo geral se compadeceu diante do trágico destino dos livros e da biblioteca. A comunidade internacional colaborou igualmente para a reconstrução do edifício e da biblioteca, de tal maneira que a Biblioteca Vijecnica, ou Biblioteca Nacional Universitária da Bósnia Herzegóvina, foi reinaugurada em 2014.

Sem dúvida um exemplo radical de biblioclastia que pôs à prova o poder do livro, e que não deve jamais ser esquecido e tão pouco repetido.
DIGA NÃO À BIBLIOCLASTIA