Do Dicionário de Citações

Dupla delícia.
O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.
Mário Quintana

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Sob os escombros da Biblioteca de Sarajevo

Livros sob os escombros de Sarajevo

1992 - A Biblioteca de Sarajevo sob os escombros.https://calledelorco.com/2015/06/28/el-hombre-que-salvo-la-haggadah-de-sarajevo-alberto-manguel/
Em Lamento por Vijecnica, do poeta bósnio Goran Simic (1993), podemos sentir a dor de uma vida despedaçada entre livros:
A Biblioteca Nacional queimou nos últimos três dias de agosto e a cidade se afogou com a neve negra.
Liberados os montes, os caracteres vagaram pelas ruas, misturando-se aos transeuntes e às almas dos soldados mortos.Vi Werther sentado na cerca arruinada do cemitério; vi Quasímodo se equilibrando com uma das mãos no minarete.Raskolnikov e Mersault cochicharam juntos durante dias em meu sótão; Gavroche se eximiu com uma camuflagem cansada.Yossarian já se vendia ao inimigo; por uns poucos dinares o jovem Sawyer mergulhava longe da ponte do Príncipe.Cada dia mais fantasmas e menos pessoas vivas; e a terrível suspeita se confirmou quando os esqueletos caíram sobre mim.Encerrei-me na casa. Folheei os guias de turismo. E não saí até que o rádio me dissesse como eles puderam apanhar dez toneladas de carvão no subterrâneo mais profundo da queimada Biblioteca Nacional.
A Biblioteca de Vijecnica, ou simplesmente, a Biblioteca Nacional da Bósnia e Herzegóvina, em Sarajevo, sofreu o primeiro de muitos ataques na noite de 25 de agosto de 1992, por ordem do general sérvio Ratko Mladic. Sucumbiram ao fogo inimigo 1,5 milhão de volumes, 155 mil obras raras, 478 manuscritos, milhões de periódicos nacionais e estrangeiros. O fim trágico desse belo edifício fundado em 1886 não foi o único a compor esse capítulo a que Fernando Báez chama de livrocídio. Jamais na história da destruição dos livros, observa o autor, bibliotecas inteiras, senão, todo o patrimônio cultural de um povo foi destruído com a finalidade de se eliminar não apenas um povo, mas a sua história, a sua memória, os seus traços. 
Ocorre que as bibliotecas são instituições universais por natureza. É esta sua vocação, desde os tempos de Alexandria, senão antes. Resguardar todo o conhecimento, toda a memória da humanidade. Quando se destrói por completo uma biblioteca, não se comete apenas o livrocídio, a limpeza étnica, tal como fora praticada em Sarajevo. Boa parte da memória do mundo estava ali, inscrita nos escombros. Como diz o poeta Simic, morreram Werther, Quasímodo, Gavroche, Saywer...
E como os livros constituem mercadorias dotadas de um poder simbólico invulgar, parece evidente que a população de modo geral se compadeceu diante do trágico destino dos livros e da biblioteca. A comunidade internacional colaborou igualmente para a reconstrução do edifício e da biblioteca, de tal maneira que a Biblioteca Vijecnica, ou Biblioteca Nacional Universitária da Bósnia Herzegóvina, foi reinaugurada em 2014.

Sem dúvida um exemplo radical de biblioclastia que pôs à prova o poder do livro, e que não deve jamais ser esquecido e tão pouco repetido.
DIGA NÃO À BIBLIOCLASTIA

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

O que é a Biblioclastia?

O que é a biblioclastia?

Dom Quixote foi vítima da biblioclastia, motivada por familiares que atribuíram seu estado de desvario ao excesso de leituras. Na ficção dirigida por Truffaut, o livro cujo herói inicia sua saga após a queima de livros, será lançado na fogueira. 
A biblioclastia consiste na prática da destruição de livros e seus praticantes são os biblioclastas.
Os biblioclastas existem desde os primórdios do livro. Ou seja, desde que os livros foram concebidos como uma espécie de guardião da memória dos homens, eles se tornaram um foco permanente de cobiça e de destruição.
Poderíamos nos perguntar sobre as motivações de um biblioclasta. Sabemos que elas são muitas e que mudam conforme o tempo e as sociedades. O medo, a intolerância, a inveja, a cobiça [lembram-se de O Nome da Rosa], a sede de poder e tantos outros vícios humanos estão entre os principais motores da destruição dos livros.

É preciso salientar que o discurso de um biblioclasta é sempre muito coerente. Queimam-se os livros hereges para extirpar esse grande mal da alma humana. Destroem-se os livros proscritos porque eles significam um perigo para a ordem social. Livros eróticos devem ser banidos, pois eles representam um ataque à moral e, geralmente, aos valores familiares. 
Enfim, como vimos no filme brilhante dirigido por François Truffaut, Fahrenheit 451 - originalmente, um livro de ficção científica homônimo, escrito por Ray Bradbury - o discurso de um biblioclasta parece sempre fazer muito sentido. Ou seja, há sempre uma razão justificável para a destruição dos livros.
Mas, se todos os livros fossem queimados e nos tornássemos homens-livros, a memória do mundo seria preservada? Sem os livros, também a escrita viria a perecer e, com ela, todo um sistema textual construído e decifrado pela incrível capacidade de memória e raciocínio abstrato desenvolvida pela humanidade cairia no ostracismo. 
DIGA NÃO À BIBLIOCLASTIA!

Biblioclastia

O Que é a Biblioclastia?

"Eu escrevo livros, por isso sei todo o mal que eles fazem". Tolstói
A comunidade uspiana consulta livros deixados ao relento, em uma área aberta, próxima ao Restaurante Universitário. Terça-feira, 30 de janeiro de 2018. Antes da chuva. Universidade de São Paulo, campus da capital.
Sinto muito, estes livros foram condenados.
Não há nada que se possa fazer.
* * *
Qual livro devo destruir?
O que devo fazer com as indesejáveis duplicatas em minha biblioteca?
O que fazem as editoras com os livros que não se vendem?
Livros podem ser indesejáveis?
Livros podem ser perigosos?
Livros são indesejáveis quando são perigosos?
Livros são perigosos quando são indesejáveis?
Livros podem ser destruídos?
Qual é o maior inimigo do livro?
A água?
O fogo?
A violência, a ignorância, a incompreensão, a insensibilidade...
Doenças humanas.
Humanas?
Durante todo esse mês a coluna Bibliomania abordará a Biblioclastia. 
Imagens, poemas, histórias e gestos indignados movem a escrita.
DIGA NÃO À BIBLIOCLASTIA!

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Bibliothèque Mazarine rende homenagem à Geografia e aos Geógrafos com uma bela exposição



Albert Demangeon nasceu em Gaillon (Eure), onde completou seus estudos até ingressar na prestigiosa École Normale Supérieure, em Paris, em 1892. Nessa instituição, ele entra em contato com os debates da geografia moderna, sob a orientação de um de seus principais protagonistas, Paul Vidal de La Blache. Torna-se agrégé, em 1895 e, em seguida, ingressa como maître-surveillant na ENS.
Em 1905 ele defende sua tese sobre a Picardia, a qual será considerada um modelo nos estudos sobre a geografia regional. Contemporâneo e colega de Emmanuel de Martonne, que se dedica à geografia física, ele segue sua carreira universitária na Sorbonne, como professor de geografia humana.
Ele falece em Paria, no início da Ocupação. Seu último projeto, inacabado, foi um Tratado de geografia humana. 
Seus arquivos se compõem de manuscritos, objetos de trabalho, correspondência, carnets de levantamentos e medidas, fotografias tiradas em suas investigações "de plein vent", materiais que permitem ao observador redescobrir Demangeon e de lhe render um lugar de mérito na escola geográfica francesa.


A Exposição

A Exposição "Albert Demangeon (1872-1940). Méthodes, archives et combats d'un géographe de plein vent", busca resgatar a biografia e a trajetória acadêmica do mestre, enfatizando seu papel na renovação do método de pesquisa em sua área.
Desde 1909, ele passa a fazer uso de questionários e dirige grandes investigações nos anos de 1930. Além disso, Demangeon não é insensível às transformações observadas no campo da história, vindo a participar ativamente dos debates e da fundação da revue Annales d’histoire économique et sociale (1929), sob a direção de Lucien Febvre e Marc Bloch.


Algumas de suas publicações

La Picardie et les régions voisines. Artois, Cambrésis, Beauvaisis, Thèse, Paris, Armand Colin, 1905, 496 p. Rééditions, Paris, Guénégaud, 1973 et Cesson-Sévigné, La Découvrance, 2001, sous le titre La Picardie. L'Artois. Le Cambrésis et le Beauvaisis.
Dictionnaire-manuel illustré de géographie, en collaboration avec Joseph Blayac, Isidore Gallaud, Jules Sion et Antoine Vacher, Paris, Armand Colin, 1907, 860 p.
Le déclin de l'Europe, Paris, Payot, 1920, 314 p. Réédition Paris, Guénégaud, 1975.
L'Empire britannique. Étude de géographie coloniale, Paris, Armand Colin, 1923, 280 p.
Les Iles Britanniques (tome I), in Paul Vidal de La Blache et de Lucien Gallois (dir.), Géographie universelle, Paris, Armand Colin, 1927, 320 p.
Belgique, Pays-Bas, Luxembourg (tome II), in Paul Vidal de la Blache et de Lucien Gallois (dir.), Géographie universelle, Paris, Armand Colin, 1927, 250 p.
Paris, la ville et sa banlieue, Paris, Bourrelier, 1933, 62 p.
Le Rhin. Problèmes d'histoire et d'économie, avec Lucien Febvre, Paris, Armand Colin, 1935, 304 p.
Les Maisons des hommes de la hutte au gratte-ciel, avec Alfred Weiler, Paris, Bourrelier, 1937, 127 p.
Problèmes de géographie humaine, Paris, Armand Colin, 1942, 408 p. (posthume)
La France économique et humaine (tome VI, 2e et 3e volumes), in Paul Vidal de la Blache et de Lucien Gallois (dir.), Géographie universelle, Paris, Armand Colin, 1946 et 1948, 900 p. (posthume)

Para saber mais: http://www.bibliotheque-mazarine.fr/fr/evenements/expositions/liste-des-expositions/albert-demangeon-1872-1940-methodes-archives-et-combats-d-un-geographe-de-plein-vent

domingo, 12 de novembro de 2017

DiverCidades: Paris, toujours Paris...

Carol Pio Pedro apresenta um olhar inspirado sobre Paris

É preciso desconfiar daquele viajante que diz não se interessar por esta ou aquela cidade, pois já passou por ela uma vez.
Quantas vezes é preciso passar por uma cidade para a conhecer bem? Eis um cálculo difícil de se fazer. Seja São Paulo, Buenos Aires, Nova Iorque, Roma, Bangladesh, Marrakech ou Paris... as cidades de ontem e as de hoje, como bem relatam os viajantes, estão sempre prontas a nos surpreender.
 
Como bem observara os historiador Fernand Braudel sobre o renascimento das cidades medievais, um núcleo urbano se organiza como colméias, eles se alimentam do movimento, das aglomerações, das rotas, das comunicações. 
Ou seja, a vocação de uma cidade é a de se alimentar das pulsões do seu tempo e do seu espaço, o que a torna sempre uma novidade... sobretudo essa cidade guarda na paisagem muitas camadas de história. 
E um bom viajante jamais pensaria que a cidade ficou ali, estacionada, a repetir uma mesma emoção, ou espanto, ou frustração de tempos passados. 
Desvendar o que vai além da paisagem e despertar o olhar do leitor para os cantinhos mais pitorescos de uma cidade, eis o espírito de um bom livro de viagens!

Lançamento

Livraria da Vila

Shopping Higienópolis

23/11

18:30-21:30

Imperdível!